Vale Tudo: quando a novela protagoniza a reflexão sobre o mercado de carbono e ESG

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Hellen Garcia

Na semana passada, a novela Vale Tudo, da Rede Globo, protagonizou uma discussão corporativa bastante interessante — e confesso que me enxerguei um pouco no lugar de Afonso Roitman. Por isso, decidi transformar essa reflexão em artigo. O filho, herdeiro do grupo Roitman e especialista em ESG, realiza uma análise dos dados da empresa e percebe que a maioria deles é fachada. A TCA (Transcapital Aerolinhas), como companhia aérea inserida na indústria de transporte, integra um setor que está entre as maiores fontes de emissão de poluentes do mundo, segundo dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

O setor de transportes é responsável por 15% das emissões globais de carbono, de acordo com o mesmo estudo. Carros, caminhões e outros veículos terrestres contribuem com 10% dessas emissões, enquanto os navios representam 1,3% e os aviões, 1,1%. Ao propor a implementação de um Programa de Créditos de Carbono, o personagem Afonso, interpretado por Humberto Carrão, apresenta dados consistentes e destaca que a empresa integra uma instituição signatária do acordo climático e que até o momento, tem feito pouca coisa (ou quase nada) sobre o tema. Na sequência, o vice-presidente do grupo, Marco Aurélio, vivido por Alexandre Nero, questiona: “Será, gente, que no Brasil o povo está preocupado com esse negócio de carbono? O povo quer entrar no avião e curtir a viagem.” Afonso responde: “As coisas estão mudando (…), e a meta é 0% de emissão líquida até 2050.” De forma surpreendente, a CEO do grupo, Odete Roitman, rebate: “Mas 2050 está muito longe.” E aí eu pergunto: quem nunca ouviu isso? Parafraseando Marcos Pinheiro , nessa “barra que é gostar de ESG” — porque, muitas vezes, é literalmente uma barra ter que explicar o óbvio o tempo todo.

Então, para quem assistiu a esse capítulo e ainda não entendeu o que é esse tal de Crédito de Carbono, este artigo traz informações relevantes, não só para quem, segundo Marco Aurélio, quer apenas “entrar no avião e curtir a viagem”, mas também para especialistas que buscam se posicionar com mais segurança, como fez Afonso na cena da semana passada.

O crédito de carbono funciona, na prática, como uma espécie de moeda no mercado global de emissões. Empresas que possuem altos níveis de poluentes, mas que encontram dificuldades ou limitações para reduzir diretamente suas emissões, podem adquirir créditos de carbono como forma de compensar esse impacto ambiental. Assim, organizações ou países que investem em ações e tecnologias para mitigar a emissão de gases de efeito estufa conseguem gerar créditos, que podem ser comercializados com quem ainda não conseguiu atingir suas metas de sustentabilidade. Cada crédito equivale a uma tonelada de dióxido de carbono que deixou de ser lançada na atmosfera, atuando diretamente na contenção do efeito estufa.

Esse sistema se estrutura principalmente por meio do comércio de emissões e do chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Projetos aprovados nesse âmbito geram as chamadas Reduções Certificadas de Emissão (RCEs), que são negociadas globalmente, permitindo que países e empresas com dificuldades de reduzir suas emissões possam compensá-las através dessas aquisições. A regulamentação desse mercado é responsabilidade de cada nação. No Brasil, por exemplo, foi instituída pela Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE).

O SBCE organiza o mercado brasileiro em dois segmentos: o setor regulado e o voluntário. O setor regulado abrange ações sob responsabilidade direta do poder público e de empresas que ultrapassam o limite de 10 mil toneladas de emissões de CO2 equivalente (CO2e) por ano, valor que considera diferentes gases, ajustados conforme seu potencial de aquecimento global. Esse setor contará com um órgão gestor, encarregado de definir normas, supervisionar e aplicar eventuais sanções.

Já o mercado voluntário permite transações mais flexíveis entre empresas e organizações, que buscam compensar emissões por iniciativa própria, seja para fortalecer suas estratégias ESG, atender expectativas de investidores ou atender consumidores cada vez mais atentos às práticas ambientais. Embora essas transações não afetem diretamente a contabilidade nacional de emissões, elas desempenham um papel relevante na criação de uma cultura empresarial mais sustentável e responsável.

Mas como esse conceito ganhou força? Sua origem remonta ao Protocolo de Kyoto, de 1997, que consolidou a ideia de que a redução das emissões de gases de efeito estufa tem valor econômico. Esse princípio foi amplamente fortalecido com o Acordo de Paris, de 2015, que uniu países em torno de metas comuns para conter o avanço das mudanças climáticas. Desde então, os créditos de carbono tornaram-se certificados internacionalmente reconhecidos, utilizados por governos, empresas e até indivíduos que desejam mitigar sua pegada ambiental. E nós, brasileiros, esperamos que esse tema esteja entre as prioridades da COP30 (30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima).

Os mercados de carbono são ferramentas poderosas para promover a transição para uma economia de baixo carbono, permitindo que emissores compensem suas emissões através da aquisição de créditos gerados por projetos de redução ou captura de carbono. O grande objetivo é transferir o custo social das emissões para quem as gera, criando incentivos financeiros para reduzir os impactos ambientais e contribuir com o combate ao aquecimento global.

Dito isso, gostaria de destacar dois pontos essenciais para quem acompanha esse debate e quer se posicionar de maneira mais estratégica e consciente:

O papel do consumidor

  • Escolha com responsabilidade: consumir produtos e serviços de empresas alinhadas com práticas sustentáveis é uma forma poderosa de impulsionar mudanças reais. Enquanto a sociedade continuar priorizando preço e conveniência em detrimento da sustentabilidade, continuaremos dando força a tantos “Marcos Aurélios” e “Odetes Roitman” que ainda minimizam a importância da transição verde.
  • Informe-se além do superficial: embora iniciativas como a da Rede Globo, ao abordar o tema em horário nobre, sejam relevantes para disseminar a pauta ESG, é importante que o público vá além da superfície. O ESG é um campo amplo, que envolve o equilíbrio entre aspectos ambientais, sociais e de governança. Apenas uma compreensão profunda permitirá mudanças estruturais de verdade.
  • Leve o tema para dentro da sua organização: seja você consumidor, colaborador ou gestor, influencie positivamente sua empresa ou instituição. Propor pequenas mudanças, sugerir programas ou até buscar capacitação são atitudes que geram impacto.
  • Não sabe por onde começar? Existem inúmeros caminhos: desde a contratação de especialistas em ESG até a busca por apoio em instituições como o Sebrae e consultorias especializadas, que oferecem suporte a negócios de todos os portes na jornada pela sustentabilidade.

O papel do especialista

Para quem atua diretamente com ESG, a responsabilidade é ainda maior, e as oportunidades, também.

  • Capacitação contínua: o cenário regulatório e técnico relacionado ao mercado de carbono está em constante evolução. Estar atualizado sobre leis, acordos internacionais e boas práticas é indispensável para atuar com segurança e credibilidade.
  • Poder de articulação e influência: mais do que dominar os dados, o especialista precisa saber comunicar de forma estratégica, convencer e engajar lideranças e equipes. A capacidade de traduzir conceitos técnicos em propostas claras e atrativas faz toda a diferença.
  • Construção de indicadores sólidos: criar métricas que evidenciem a evolução, mostrando, por exemplo, onde a organização estava e onde chegou após determinada iniciativa — é uma forma concreta de valorizar o trabalho realizado e reforçar o compromisso com as metas ambientais.
  • Visão estratégica e integrada: ESG não é mais um tema isolado. É parte central da estratégia de negócios, impactando desde a reputação até o acesso a financiamentos. O especialista deve ser um articulador entre as áreas, promovendo uma cultura organizacional orientada as práticas ESG.

Conclusão:

A discussão encenada na novela é um reflexo fiel do que acontece hoje em muitos conselhos administrativos, setores empresariais e até nas nossas rodas de conversa. O debate sobre a transição para uma economia de baixo carbono deixou de ser um tema exclusivo de especialistas para se tornar uma pauta cotidiana, que impacta diretamente a competitividade das empresas, as políticas públicas e o futuro das próximas gerações.

Que esse exemplo sirva para reforçar: precisamos de consumidores conscientes, especialistas bem-preparados e empresas corajosas para liderar essa transformação. O futuro sustentável não é um destino longínquo como 2050 — ele começa com as decisões que tomamos agora.

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